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0 - História do município de São Mateus

Os textos abaixo são de autoria de Eliezer Ortolani Nardoto, baseados no livro "História de São Mateus" de sua autoria em parceria com Herinéa Lima Oliveira. 

Bibliografia citada:

CARDIM, Fernão. Tratado da Terra e Gente do Brasil. 2ª Edição. Rio: Companhia Editora Nacional, 1939.

LACHINI, Claudio. Vasco: memórias de um precursor da globalização. São Paulo: Editora Barcarolla, 2009.

NARDOTO, Eliezer Ortolani e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. São Mateus: Edal Editora, 1999.

NARDOTO, Eliezer Ortolani, Paisagens de São Mateus. São Mateus: Jornal de São Mateus Ltda, 2004.

OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. Rio de Janeiro: IBGE, 1951.

SANTÂNGELO, Enzo. Daniel Comboni Missionário e Libertador. 4ª Edição. São Paulo.: Edições Loyola, 1996
 

01 - Os índios que habitavam a região de São Mateus

As cerâmicas indígenas encontradas nos últimos anos nos municípios de São Mateus, Conceição da Barra e Linhares trazem as características das tribos do tronco lingüístico tupi.
Muitos historiadores citados no livro História de São Mateus, de minha autoria em parceria com Herinéa Lima, afirmam ser tupis os habitantes da costa e os botocudos os habitantes do sertão.
Os botocudos receberam esse nome por causa dos botoques que usavam nos lábios e orelhas. Pertencem a outro tronco lingüístico o macro-gê. Habitavam a região do atual município de Nova Venécia seguindo em direção a Minas Gerais. Aqui eram chamados de aymorés (guaimurês).
Quando chegaram os primeiros colonizadores em São Mateus, seus combates foram contra os tupinambá.

Pelos achados arqueológicos encontrados nos últimos anos em várias localidades, podemos afirmar que existiam aldeias indígenas onde atualmente se situam os povoados de Barreiras e Meleiras, no município de Conceição da Barra, e os bairros Pedra D´Água, Aviação, Sernamby, Carapina, Parque Washington, Centro, Ideal, Santo Antonio, Litorâneo e algumas localidades do interior como São Miguel e outras da região do Nativo, no município de São Mateus.
Os achados arqueológicos mais recentes estão guardados no Museu de São Mateus. São várias urnas funerárias de cerâmica tupi e aratu contendo esqueletos indígenas, de origem tupi (tupinambá). Porém, as urnas funerárias encontradas em 2005 são dos índios aratu, que habitavam a costa antes da chegada dos tupi. 

02 - Início da Colonização - A Batalha do Cricaré

Quem ousasse atravessar o oceano Atlântico para fixar residência no Brasil, no século XVI, era considerado, no mínimo, um louco. Enfrentar as doenças tropicais, os animais selvagens e os índios não era coisa fácil.
Bem por isso que os primeiros portugueses que Vasco Fernandes Coutinho trouxe para sua capitania do Espírito Santo saíram dos cárceres de Portugal.
Eram ladrões, salteadores e assassinos que recebiam perdão dos seus crimes, desde que viessem para ficar no Brasil. Isso era o que estava estabelecido em um decreto do Rei Dom João III, em 1534. (NARDOTO, 1999, p.27)
Quando aqui chegavam, com suas armas de fogo dominavam os índios que se defendiam com armas primitivas: arco e flecha, tacape (lança de madeira) e bordunas (pedaço de pau tipo cassetete).
Os índios eram escravizados para o trabalho nos engenhos e as índias estupradas. Muitas delas se tornaram companheiras e esposas dos portugueses.
Os índios começaram a entender que aquele povo poderoso estava vindo para ficar e trataram de se defender como podiam, juntando-se até com nações e tribos adversárias para enfrentar os invasores.
A capitania do Espírito Santo vinha passando por muitas dificuldades, dentre as quais a ausência do donatário que fez várias viagens a Portugal em busca de auxílio financeiro. Isso estava gerando descontentamento e desunião entre os colonos.
Na volta de uma dessas viagens, Vasco Coutinho encontrou sua capitania com poucos colonos, pois muitos haviam migrado para outras terras, inclusive para a região do Cricaré.
Sentindo-se acuado pelos índios, o donatário pediu auxílio ao Governador Geral do Brasil, Mém de Sá, para acudi-lo antes que todos fossem devorados pelos índios que eram canibais.
O Governador mandou seu filho Fernão de Sá comandando duzentos homens em seis caravelas para socorrer os colonos no Espírito Santo.
Ao chegar a Porto Seguro, o capitão Fernão de Sá recebeu a informação de que na região do rio Cricaré se concentravam muitos índios.
Entrando na foz do rio Cricaré, o jovem oficial avançou sobre as fortalezas (mareriques) de pau-a-pique, construídas pelos índios para suas defesas, matando e prendendo índios e índias.
Depois de destruir duas fortalezas, avançou sobre uma terceira, maior que as outras.
Os guerreiros indígenas, percebendo que havia terminado a munição do comandante, avançaram sobre ele e o mataram com flechadas.
Junto com ele morreram Manuel Álvares e Diogo Álvares, filhos naturais de Diogo Álvares Correia, o “Caramuru” e também Bernaldo Pimenta.
Esses combates aconteceram em vários pontos da margem do rio Cricaré, inclusive no rio Mariricu (variação da palavra Marerique), no início do ano de 1558.
Após a morte de Fernão de Sá, Vasco Coutinho reorganizou a tropa em Vila Velha e designou “Diogo de Moura, um veterano de combate nas Índias” para comandar a expedição punitiva que executou um grande massacre, destruindo aldeias e matando muitos índios na região de São Mateus. (LACHINI, 2009, p.199)
É o próprio Mém de Sá quem assim escreve ao rei de Portugal:
“Fica [a Capitania do Espírito Santo] agora muito pacífica e o seu gentio tão castigado: mortos tantos e tam principaes que parece que não alevantaram a cabeça tam cedo”. (OLIVEIRA, 1951, p.92)
A batalha em que morreu Fernão de Sá se configura como a primeira derrota dos portugueses na costa brasileira e a vingança de sua morte o maior genocídio cometido contra os índios no Brasil.
Depois da Batalha do Cricaré, a povoação de São Mateus recebeu mais colonos que foram transformando a povoação numa das maiores produtoras de farinha de mandioca da costa brasileira.
Marinheiros de várias partes aqui chegavam trocando facões, machados e pólvora por alimento (principalmente a farinha).
Já os mineiros que viviam nos sertões de São Mateus vinham trocar pedras preciosas por armas, pólvora, ferramentas e roupas.

 

03 - Aldeia de São Mateus - Séculos XVI e XVII

A tradição oral diz que Anchieta celebrou a primeira missa em um dia 21 de setembro, dia em que a Igreja Católica celebra a festa do evangelista Mateus. Nesse dia ele teria atribuído à aldeia e ao rio o nome cristão de “São Mateus”, retirando o nome pagão “Cricaré”, como era o costume da época.
Numa narrativa de sua viagem pela costa brasileira no ano de 1583, o jesuíta Fernão Cardim cita "aldêa de S. Mateus" [sic], exatamente no dia em que nela chegou para participar da festa do padroeiro. (CARDIM, 1939, p. 263, grifo nosso). Nisso baseia-se nossa tese que o Padre Anchieta foi responsável pela mudança do nome, e que o ano seja o de 1566 e não 1596, como defende alguns historiadores (NARDOTO, 1999, p.406).

04 - A Criação da Vila de São Mateus - Século XVIII

Há poucos registros sobre a povoação de São Mateus após os relatos de Mém de Sá narrando a morte do seu filho. Dos séculos XVI e XVII, portanto, pouco se sabe sobre a povoação.
A partir de 1716, Domingos Antunes recebeu a patente de “Capitão dos Moradores”, trazendo famílias para a povoação. Isso desenvolveu a vila, principalmente com a perspectiva de se encontrar ouro nas nascentes do rio São Mateus.
O governo português, percebendo o perigo de perder o controle sobre as minas de ouro de Minas Gerais, resolveu tomar providências enérgicas para se evitar a subida de colonos para o sertão.
Em 1764, Thomé Couceiro de Abreu, Ouvidor Geral da Capitania de Porto Seguro, seguindo orientação da Coroa Portuguesa, ultrapassou os limites territoriais de sua capitania e tomou as medidas necessárias para a elevação da povoação à categoria de Villa Nova do Rio de Sam Matheus, anexando-a ao domínio da Bahia.
Dentre as providências tomadas no ato de fundação da vila citamos: a medição das ruas e do largo da praça próxima à Igreja Matriz de São Mateus, o início da construção da Casa de Câmara e Cadeia, a implantação do Pelourinho para aplicação de castigos (açoite) aos considerados fora-da-lei e a eleição dos primeiros vereadores.
A ata de elevação à vila é datada de 27 de setembro de 1764.
A partir dessa época, os colonos receberam incentivos para se estabelecerem nas terras localizadas entre a vila e o mar e foi proibida a subida para Minas Gerais.
A vila de São Mateus passou a dar obediências ao governo da Bahia e, a partir desse momento, houve grande crescimento das atividades comerciais, pois muitas famílias importantes daquele estado mudaram-se para São Mateus.

 

05 - A mandioca, o açúcar e o café - Século XIX

No século XIX, São Mateus ganhou um grande impulso com a implantação de muitas fazendas de cana-de-açúcar e mandioca. O gado ainda era pouco.
Em 1827 já existiam 2361 escravos negros (1228 homens e 1133 mulheres). Os brancos eram 478 homens e 475 mulheres.
Nas últimas décadas daquele século iniciou-se o plantio de café na região.

 

06 - O Barão de Timboy

Olindo Gomes dos Santos Paiva era grande proprietário de terras na região de Itaúnas, no município de Conceição da Barra.
Esse fazendeiro doou todos os postes para a implantação da rede de telégrafo ligando Vitória a São Mateus. Essa doação lhe rendeu o título nobre de “Barão de Timboy”.
O barão de Timboy era mestiço. Não se casou, mas teve filhos com diversas mulheres.

07 - O Barão dos Aymorés

Antonio Rodrigues da Cunha, filho do Coronel e Comendador Antonio Rodrigues da Cunha e Dª Rita Maria da Conceição Cunha, nasceu em 1834, em Barra do São Mateus, atual município de Conceição da Barra.
Quando seu pai faleceu (1863) ele já estava em sua própria fazenda na Cachoeira do Cravo, com sua esposa Thomázia, filha do Barão de Itapemirim.
Essa fazenda, implantada às margens do braço sul do rio São Mateus, terra dos índios botocudos (aymorés), era modelo de propriedade.
Foi o Barão quem primeiro represou o rio São Mateus para instalar engenhos importados da Europa, para fabricação de açúcar.
Fazendeiros portugueses e brasileiros já possuíam fazendas implantadas próximas ao rio São Mateus, como Antonio Gomes, Manoel Barbosa, Gotardo José Esteves e outros.
Antonio Rodrigues da Cunha, Major da Guarda Nacional, recebeu, em março de 1889, o título de “Barão de Aymorés", que lhe foi outorgado pelo Imperador D. Pedro II.
O Barão faleceu em São Mateus em 31 de julho de 1893.

08 - A criação do município de São Mateus

A vila de São Mateus passou a ser município por Ato Provincial de 3 de abril de 1848.
No entanto não existe nenhuma comemoração nessa data, pois a celebração mais importante do município é a festa do padroeiro que acontece no dia 21 de setembro, quando se festeja também o início da colonização européia iniciada em 1544.

09 - Os negros de São Mateus

As terras compreendidas desde o rio Barra Seca até o rio Mucuri, divisa original do Espírito Santo com a Bahia, pertenciam ao município de São Mateus. E vimos que esse território foi anexado à Bahia, na época da fundação da Vila de São Mateus.
Essa situação continuou até 1823, quando a administração foi devolvida ao Espírito Santo.
Como nesse período muitos fazendeiros vieram da Bahia para São Mateus, a maior parte dos escravos também vinha com eles ou através dos mercadores baianos de escravos.
Vieram negros de Angola e Guiné, das nações Bantu, Benguela, Cabidela. Foram trazidos para o trabalho nas lavouras, principalmente para produzir farinha de mandioca, alimento indígena que os portugueses e africanos incorporaram aos seus hábitos alimentares.
Contando com centenas de casas de farinha denominadas “kitungo, quitungo ou quitundo”, a região de São Mateus se transformou numa das maiores produtoras e exportadoras de farinha de mandioca da costa brasileira.
O maior contingente de negros veio no início do século XIX, sendo que o último carregamento clandestino apreendido na costa brasileira aconteceu em 1856, quando foi aprisionada uma escuna norte-americana na barra do rio São Mateus, com 350 africanos.
O movimento abolicionista em São Mateus era forte no final daquele século e os negros lutavam no sertão e na cidade contra a escravidão, organizando grupos que enfrentavam os temíveis capitães-do-mato.

10 - A vinda dos italianos para São Mateus

No final do século XIX, a 13 de maio de 1888, acabou a escravidão no Brasil.
Nesse mesmo ano, chegou ao Porto de São Mateus o primeiro grupo de imigrantes italianos, formado por aproximadamente cinqüenta famílias.
Elas foram encaminhadas para os lotes demarcados no vale do córrego Bamburral, para a formação do núcleo de Santa Leocádia, a cerca de 20 km da sede do município.
Essa região estava infestada de mosquitos que transmitem a Febre Palustre (Malária). Isso provocou a morte da metade dos primeiros colonos italianos. No primeiro mês não fizeram outra coisa a não ser enterrar os mortos. (NARDOTO, 1999, p.92)
O Major Antonio Rodrigues da Cunha conseguiu levar muitas famílias de imigrantes para trabalhar em suas terras como também o fizeram Constante Sodré e outros fazendeiros que se instalaram nas regiões mais altas, em terras mais apropriadas para a implantação da cultura do café.
Utilizando a mão-de-obra italiana, Antonio Cunha pode então completar o sonho de formar sua grande fazenda na Serra dos Aymorés.
No entorno do “Barracão” utilizado como entreposto por Antonio Cunha, localizado a aproximadamente 30 km acima de sua fazenda na Cachoeira do Cravo, formou-se um núcleo urbano.
Os italianos o denominaram “Nova Venécia”, para lembrar a cidade de Veneza, capital da região do Veneto, na Itália, de onde veio a maioria dos imigrantes.

 

11 - A Estrada de Ferro São Mateus - Nova Venécia

Na segunda década do século XX foi construída a estrada de ferro ligando São Mateus a Nova Venécia, facilitando o escoamento de madeira e café.
O trem-de-ferro fazia as paradas em pequenas estações construídas em vários pontos que recebiam o nome dos quilômetros correspondentes.
Com a desativação da estrada de ferro em 1945 e a implantação da rodovia obedecendo ao mesmo trajeto da ferrovia, as localidades que se desenvolveram ao longo da rodovia ficaram conhecidas com o nome da quilometragem correspondente à paradas do trem de ferro. Assim temos as localidades de Km 41, Km 35, Km 28, Km 13 e outras.
O trem transportava cargas e passageiros entre São Mateus e Nova Venécia.

12 - O Porto de São Mateus

Até o final da década de 1930, os meios de transporte de passageiros ou de mercadorias para toda região norte do Espírito Santo eram os animais (cavalos e tropas de muares), os pequenos navios que aportavam em São Mateus e o trem de ferro para Nova Venécia.
O movimento no Porto de São Mateus era intenso, com os trapiches cheios de mercadorias para exportação. Os armazéns vendiam mercadorias aos moradores locais e aos das vilas do interior como Barra de São Francisco, Nova Venécia, Boa Esperança e outras, todas ainda pertencentes ao território de São Mateus.
A maior parte das mercadorias produzidas nas fazendas era transportada em canoas e vogas para o Porto, onde eram vendidas para consumo local ou exportação para outras cidades.
Por causa da pouca profundidade e largura do rio em alguns lugares, os navios só podiam entrar ou sair de 15 em 15 dias, nas luas Cheias e Novas, quando as marés são mais altas.
Caminhões, automóveis e passageiros utilizavam a balsa no porto, antes da construção da ponte sobre o rio São Mateus.

13 - As Estradas de Rodagem e a Decadência do Porto de São Mateus

Com a abertura das estradas de rodagem, a partir de 1938, ano em que se inaugurou a estrada ligando São Mateus a Linhares, foi implantado o transporte de passageiros com ônibus. Depois da Segunda Guerra Mundial houve um aumento na oferta de transportes com caminhões e a ferrovia foi desativada e transformada em rodovia.
O transporte por navio entrou em decadência e o velho Porto foi perdendo as grandes casas comerciais que se mudaram para a Cidade Alta.

14 - Economia em Decadência

Já nas primeiras décadas do século XX, algumas das famílias mais importantes de São Mateus mudaram-se para a capital ou para outras cidades brasileiras, principalmente Rio de Janeiro.
O término das madeiras das matas nativas levou as indústrias de madeira (serrarias) a encerrarem suas atividades no município, na segunda metade desse século.
A produção agrícola do município, sem mecanização alguma, era muito pequena e sofria muito no período das estiagens.
Muitos comerciantes foram desistindo de suas atividades ou mudaram-se para outras cidades mais prósperas.
Distante da capital do Estado, com estrada ruim, carente de energia elétrica que era fornecida apenas no horário noturno, sem políticas públicas que pudessem incrementar algum desenvolvimento para a região, a cidade de São Mateus entrou em uma grande crise nas décadas de 50 e 60 do século XX.

15 - O Eucalipto e o Petróleo: A Redenção do Norte

O dia 15 de agosto de 1967 nunca será esquecido em São Mateus. Nesse dia, às 19h55m jorrou petróleo na Fazenda Ponta, no poço 1-SM-01-ES, na localidade de Nativo de Barra Nova.
A euforia do povo foi tamanha que muitos tomaram banho de petróleo, no Nativo.
Na década de 1970 foram descobertos vários campos de petróleo em São Mateus e Linhares e, na década de 1980, essas descobertas foram ampliadas.
Com o preço do Petróleo em alta no mercado internacional, a Petrobrás decidiu criar o Distrito de Exploração do Espírito Santo, na cidade de São Mateus.
A partir daí a economia da cidade se transformou completamente.
Concomitantemente, acontecia uma revolução no uso das terras em São Mateus e Conceição da Barra, com a implantação das florestas de eucalipto, a partir de 1969, graças ao pioneirismo do empresário Salvador Dutra que iniciou um plantio de 500 hectares, nesse mesmo ano.
Também nesse ano, a Companhia Vale do Rio Doce e a Aracruz Celulose S/A iniciaram seus grandes projetos de plantação de eucalipto. A primeira com fins energéticos e a segunda para produzir celulose. (NARDOTO, 2004, p. 46).
Nessa época, a falta de política agrícola de apoio à pequena propriedade enfraquecia os agricultores. Acrescente-se a isso a propaganda oficial da Caderneta de Poupança, em tempo de inflação alta, levando os menos avisados a pensarem que ganhavam muito aplicando dinheiro em poupança.
Esses fatores somados a onda de urbanização que se iniciava naquela época, facilitava o convencimento dos pequenos agricultores em todo o Brasil, de que era melhor vender a terra e ir para a cidade.
As terras consideradas de pouca fertilidade passaram a receber as devidas correções e a mecanização agrícola facilitava o trabalho de plantio e de corte do eucalipto.
A população de São Mateus viu a cidade crescer demasiadamente com a vinda de pessoas dos mais diferentes municípios brasileiros que buscavam trabalho nas plantações de eucalipto ou na indústria de exploração de petróleo.
A população urbana cresceu mais de 600%, de 1980 a 2004.
O setor imobiliário obteve mais lucros. O comércio foi o que alcançou o maior crescimento e os serviços passaram a ter grande representação na economia do município.
Os maiores bairros de São Mateus, dentro os quais Vila Nova e Santo Antônio, formaram-se sob a influência das empresas plantadoras de eucalipto, principalmente a Aracruz Celulose, nas décadas de 70 e 80..

16 - O Petróleo impulsiona a economia

A partir da década de 1970, nas paisagens do litoral norte do Espírito Santo foram implantados pela Petrobras os campos e estações coletoras de petróleo e gás.
Novas estradas foram abertas para a exploração do petróleo, facilitando o acesso às regiões pouco assistidas até então.
Nos últimos anos, um mundo de oportunidades vem sendo plantado em todo o estado do Espírito Santo em função das descobertas de grandes campos de petróleo.
No norte, novas descobertas de óleo pesado em São Mateus, semelhante ao campo de Fazenda Alegre, no município de Jaguaré, mostra que a Petrobras está acertando em investir nas bacias terrestres e no desenvolvimento e aplicação de tecnologias para a produção de óleos com maior densidade.
A Estação de Fazenda Alegre, em Jaguaré, e o Terminal Norte Capixaba, em São Mateus, são dois investimentos que estão modificando a paisagem e a economia do norte capixaba.
Além disso, os municípios também vêm recebendo vultosas indenizações (royalties) pela exploração da riqueza do subsolo.
Toda essa movimentação contribui para o crescimento da economia da região nos seus diversos setores, principalmente o comércio e serviços.

17 - O Agro-Negócio

A vinda dos grandes projetos florestais estimulou muitos proprietários a se utilizarem da mecanização e das novas tecnologias que chegavam para o campo.
A família Martin iniciou o cultivo do mamão, levando o município a ser o maior produtor do Brasil, na décadas de 1980, e o pioneiro na exportação desse produto para o exterior. Depois, a mesma família iniciou o cultivo da macadâmia e culturas condimentares (urucum, aroeira e outras pimentas).
A fruticultura, os novos plantios com mudas clonais de café, de seringueira, de coco anão e tantas outras culturas agrícolas tornaram a agricultura do município uma das mais diversificadas do mundo.
Com sua área de 256.919,3 hectares ocupada principalmente por atividades agro-pecuárias, o agro-negócio mateense passou a ser responsável pela geração da maior parte do emprego e da renda no município.
Segundo informações do IBGE, São Mateus se coloca como a segunda melhor distribuição fundiária do estado, contanto com 88 % de duas propriedades rurais classificadas como micro e pequenas.
No ano de 2006, o PIB agrícola do município foi o maior do Brasil, graças ao eucalipto e à expansão da fruticultura.

18 – Pólo de Educação

Neste início de século, o município de São Mateus está vivendo uma outra grande fase com a implantação do ensino técnico (Escola Técnica Federal, denominado atualmente IFES - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo) e superior (CEUNES – Centro Universitário Norte do Espírito Santo – UFES).
O ensino público e as escolas de ensino técnico e superior privadas transformaram São Mateus num pólo educacional cujas conseqüências já são percebidas no campo cultural e, principalmente, no econômico, pois está proporcionando um grande aumento nas atividades comerciais e no mercado imobiliário.

19 - História de Guriri

Os primeiros banhistas passaram a freqüentar a praia de Guriri na década de 1950. Não havia estrada e a viagem era feita em canoas, pelo rio São Mateus e rio Mariricu, ou por um caminho muito difícil entre as localidades de Pedra D'Água e Mariricu.
O prefeito Othovarino Duarte Santos iniciou a construção da estrada no final do seu primeiro mandato, em 1951, puxando barro dos barrancos da Pedra D'Água, em carroças e sobre couro de boi, pois não existiam caminhões nem máquinas para executarem os serviços.
A construção da estrada e da primeira ponte sobre o rio Mariricu foi concluída em 1962, no seu segundo mandato (1959/1963).
Os moradores de São Mateus freqüentavam, até então, a praia de Conceição da Barra.
A primeira ponte, construída por Othovarino, era toda de madeira. Foi derrubada numa grande enchente, pois o buzano (espécie de lesma que rói a madeira e nela se infiltra, muito comum nos rios de águas salobras) perfurou os pilares que, enfraquecidos, foram derrubados pelos balsedos (nome que os mateenses denominam o aguapé).
A segunda ponte foi construída, em 1966, pelo prefeito Otívio de Almeida Cunha (08/03/1965 a 31/01/1967). Essa ponte tinha os pilares de concreto armado, fixados em estacas de trilhos de ferro, cuja estrutura ainda existe no local.
A estrada para Guriri foi asfaltada pelo Governo Estadual, na década de 1980.
No início da década de 70, na administração do prefeito Amocim Leite, a prefeitura doou muitos lotes para construção de casas e o balneário alcançou grande crescimento. No final da década de 70, na administração do prefeito Gualter Nunes Loureiro, o balneário recebeu o serviço de água e energia elétrica e a prefeitura definiu sua urbanização com um grande loteamento.
No início da década de 90, na administração do prefeito Pedro dos Santos Alves, o sistema de água teve sua capacidade triplicada. Foram realizadas as obras de calçamento da Av. Oceano Atlântico, do calçadão, da iluminação da avenida e a implantação do telefone.
A terceira ponte foi construída pelo Governo Estadual e inaugurada no dia 16/01/1998.
Nesse mesmo ano, na administração do prefeito Rui Baromeu, foram construídos o Portal de Guriri, o acostamento da rodovia, no trecho entre a ponte e o balneário, com ciclovia e moderna iluminação e uma cascata na entrada do balneário.
A prefeitura ampliou a capacidade de abastecimento de água do balneário e viabilizou os recursos junto ao Governo Federal (governo FHC) para o início da construção do sistema de esgoto sanitário do balneário, obra iniciada no primeiro ano (2001) do mandato do prefeito Lauriano Marco Zancanela.
As obras de saneamento do Guriri foram paralizadas no início do Governo Lula que não liberou os recursos para a sua conclusão.
No governo de Lauriano foram realizadas obras de melhoria na iluminação pública, de urbanização da orla com a  construção do calçadão, calçamento das avenidas Esbertalina Barbosa Damiani (do Praiano), Oceano Índico e Mar Negro e rua de acesso aos hotéis do lado norte e de acesso à Igreja Matriz Dom Daniel Comboni, além de outros pequenos trechos em diversas ruas..
Atualmente Guriri faz parte da zona urbana do município e pertence ao distrito da Sede.

CURIOSIDADES DA ILHA
Coquinho de Guriri (Alagoptera arenaria Gomes) - Apresenta-se em cachos e pode ser utilizado na alimentação. Suas folhas na confecção de artefatos. 

Cambucá (Myrciaria strigipes Berg) - Pequeno fruto édulo, de cor amarelada, muito apreciado na alimentação dos nativos. As folhas, por infusão são usadas contra bronquite, coqueluche e tosses.

Mangaba (Hancornia speciosa Gomes) - Fruto édulo de coloração esverdeada, muito comum na ilha de Guriri, é utilizado para doces, sorvetes, refrescos e vinho.

Aroeira (Schinus terebinthifolius Raddi) - De muita utilização como remédio pelos nativos, a aroeira é uma espécie de pimenta que está sendo exportada para a Europa por uma empresa de São Mateus. Muito comum na costa brasileira, está sendo indicada para arborização de ruas, principalmente nos balneários, por ser uma espécie nativa que não exige grandes tratos e pelo valor do fruto.
*A bióloga Marilena Cordeiro Fernandes de Jesus publicou sua monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Ecologia e Recursos Naturais (UFES), intitulada ETNOBOTÂNICA NA ILHA DE GURIRI SÃO MATEUS / CONCEIÇÃO DA BARRA-ES, em 1997, onde apresenta 72 espécies em 42 famílias vegetais por ela estudadas.
A praia de Guriri está a 12 km do Centro de São Mateus e tem como via de acesso a rodovia Othovarino Duarte Santos. É uma praia freqüentada por turistas de diversos pontos do país, sendo o seu carnaval um dos mais animados do Espírito Santo.
Nas marés baixas formam-se, em sua extensão, grandes piscinas naturais.

20 - A Igreja de Comboni em Guriri

A IGREJA DE SÃO DANIELCOMBONI EM GURIRI
Dom Daniel Comboni, um bispo italiano que dedicou sua vida à salvação da África.
Viveu no século XIX e lutou muito contra a escravidão e a pobreza em que viviam os africanos.
Morreu em 10 de outubro de 1881, com pouco mais de 50 anos. Foi Beatificado em 17 de março de 1996 e canonizado em 5 de outubro de 2003.
A Igreja de São Mateus edificou a igreja de Comboni, a primeira do mundo a ele dedicada, na praia de Guriri, com a forma arquitetônica de uma grande barca, lembrando as várias viagens de Comboni para a África para defender os negros da escravidão. 
A beleza dessa igreja está em seu interior, com um grande vão livre, cujo telhado se apóia num intrigante projeto de tesouras de madeira.

 

O MILAGRE DE DANIEL COMBONI EM SÃO MATEUS
No dia 5 de outubro de 2003, Daniel Comboni foi canonizado em cerimônia realizada pelo papa João Paulo II, em Roma, por causa de uma cura milagrosa que aconteceu no Hospital Maternidade de São Mateus com a menina Maria José Paixão Oliveira, no início da década de 1970.
Essa menina estava internada e o médico Carlos Cassiano fez uma cirurgia em seu estômago constatando, de imediato, uma infecção generalizada. Ele fechou o abdome da menina e disse para a irmã comboniana Luigia Polli que não havia mais nada a fazer.
Naquele momento de tristeza a irmã Luigia pediu, em oração, que Comboni fizesse alguma coisa.
“O santinho de Daniel Comboni passou das mãos da irmã Luígia para as gélidas mãos de Maria José com esta estranha e pedagógica sugestão: 'Esse homem barbudo pode lhe ajudar. Reze para ele'.” (SANTÂNGELO, 1996, p. 80)
A menina apertou o retratinho em suas mãos e o colocou sob o travesseiro. As Irmãs fizeram uma corrente de orações para ela durante toda a noite. No dia seguinte a menina acordou e pediu comida.
O Dr. Carlos Cassiano ficou sem entender o que ocorrera no hospital.
Anos mais tarde, o médico foi ao Vaticano dar o seu testemunho científico da cura extraordinária. Seu depoimento foi muito importante para a Igreja Católica colocar Daniel Comboni como santo.

 

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