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0. História de São Mateus

Os textos abaixo são de autoria de Eliezer Ortolani Nardoto.

01. Os índios que habitavam a região de São Mateus

As cerâmicas indígenas encontradas nos últimos anos nos municípios de São Mateus, Conceição da Barra e Linhares trazem as características das tribos do tronco lingüístico tupi.
Muitos historiadores citados no livro História de São Mateus, de minha autoria em parceria com Herinéa Lima, afirmam serem tupis os habitantes da costa e botocudos os habitantes do sertão. Os botocudos receberam esse nome por causa dos botoques que usavam nos lábios e orelhas. Pertencem a outro tronco lingüístico: o macro-gê.
Habitavam a região do atual município de Nova Venécia seguindo em direção a Minas Gerais. Aqui eram chamados de aymorés (guaimurês).
Quando chegaram os primeiros colonizadores em São Mateus, seus combates foram contra os tupinambás.
Pelos achados arqueológicos encontrados nos últimos anos em várias localidades, podemos afirmar que existiam aldeias indígenas onde atualmente se situam os povoados de Barreiras e Meleiras, no município de Conceição da Barra, e os bairros Pedra D´Água, Aviação, Sernamby, Carapina, Parque Washington, Centro, Ideal, Santo Antônio, Litorâneo e algumas localidades do interior como São Miguel e outras da região do Nativo, no município de São Mateus.
Os achados arqueológicos mais recentes estão guardados no Museu de São Mateus. São várias urnas funerárias contendo esqueletos indígenas, de origem tupi (tupinambá) e aratu. Na primeira foto abaixo mostramos um fragmento de uma urna funerária com características tupi, com aproximadamente 900 anos, encontrada próxima ao Hospital Roberto Silvares, em São Mateus. Na segunda, mostramos uma urna funerária confeccionada em cerâmica com característica aratu, encontrada no bairro Pedra D'Água. Ambos estão expostos no Museu de São Mateus.

02. Início da Colonização - A Batalha do Cricaré

Quem ousasse atravessar o oceano Atlântico para fixar residência no Brasil, no século XVI, era considerado, no mínimo, um louco. Enfrentar as doenças tropicais, os animais selvagens e os índios não era coisa fácil. Bem por isso que os primeiros portugueses que Vasco Fernandes Coutinho trouxe para sua capitania do Espírito Santo, em 1535, saíram dos cárceres de Portugal. Eram ladrões, salteadores e assassinos que recebiam perdão dos seus crimes, desde que viessem para ficar no Brasil. Isso era o que estava estabelecido em um decreto do Rei Dom João III, em 1534. (NARDOTO, Eliezer Ortolani e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. São Mateus:Edal, 1999, p.27)
Quando aqui chegavam, com suas armas de fogo dominavam os índios que se defendiam com armas primitivas: arco e flecha, tacape (lança de madeira) e bordunas (pedaço de pau tipo cassetete).
Os índios eram escravizados para o trabalho nos engenhos e as índias estupradas. Muitas delas se tornaram companheiras e esposas dos portugueses.
Os índios começaram a entender que aquele povo poderoso estava vindo para ficar e trataram de se defender como podiam, juntando-se até com nações e tribos adversárias para enfrentar os invasores.
A capitania do Espírito Santo passou por muitas dificuldades, dentre as quais a ausência do donatário que fez várias viagens a Portugal em busca de auxílio financeiro. Isso estava gerando descontentamento e desunião entre os colonos.
Na volta de uma dessas viagens, Vasco Coutinho encontrou sua capitania com poucos colonos, pois muitos haviam migrado para outras terras, inclusive para a região do Cricaré.
Sentindo-se acuado pelos índios, o donatário pediu auxílio ao Governador Geral do Brasil, Mém de Sá, para acudi-lo antes que todos fossem devorados pelos índios que eram canibais.

O Governador mandou seu filho Fernão de Sá comandando duzentos homens, em seis caravelas, para socorrer os colonos no Espírito Santo.
Ao chegar a Porto Seguro, vindo de Salvador, o capitão Fernão de Sá recebeu a informação de que na região do rio Cricaré se concentravam muitos índios.
Entrando na foz do rio Cricaré, o jovem oficial avançou sobre os mareriques (fortalezas de pau-a-pique), construídos pelos índios para suas defesas, matando e prendendo índios e índias.
Depois de destruir duas fortalezas, avançou sobre uma terceira, maior que as outras.
Os guerreiros indígenas, percebendo que havia terminado a munição do comandante, avançaram sobre ele e o mataram com muitas flechadas. Junto com ele morreram Manuel Álvares e Diogo Álvares, filhos naturais de Diogo Álvares Correia, o “Caramuru” e também Bernaldo Pimenta.
Esses combates aconteceram em vários pontos da margem do rio Cricaré, inclusive no rio Mariricu (variação da palavra marerique), no início do ano de 1558.
Após a morte de Fernão de Sá a armada portugesa navegou para a Vila da Vitória para se encontrar com o donatário Vasco Coutinho. Depois de refeita das feridas, a armada, agora sob o comando de Balthazar de Sá, sobrinho do Governador Geral,  volta ao "reduto indígena do Cricaré" e promove um  grande massacre, destruindo aldeias e matando muitos índios.
É o próprio Mém de Sá quem assim escreve ao rei de Portugal:
“Fica [a Capitania do Espírito Santo] agora muito pacífica e o seu gentio tão castigado: mortos tantos e tam principaes:  que parece que não alevantaram a cabeça tam cedo”. (OLIVEIRA, José Francisco de. História do Estado do Espírito Santo. Rio de Janeiro: IBGE,1951, p.92)
A batalha em que morreu Fernão de Sá se configura como a primeira derrota dos portugueses na costa brasileira e a vingança de sua morte o maior genocídio cometido contra os índios no Brasil.
Depois da Batalha do Cricaré, a povoação de São Mateus recebeu mais colonos que foram transformando a povoação numa das maiores produtoras de farinha de mandioca da costa brasileira. Marinheiros de várias partes aqui chegavam para trocar facões, machados e pólvora por alimentos (principalmente a farinha).
Já os mineiros que viviam nos sertões de São Mateus vinham trocar pedras preciosas por armas, pólvora, ferramentas e roupas.

03. Aldeia de São Mateus - Séculos XVI e XVII

A tradição oral diz que o padre José de Anchieta celebrou a primeira missa na aldeia do Cricaré em um dia 21 de setembro, dia em que a Igreja Católica celebra a festa do evangelista Mateus.
Nesse dia ele teria atribuído à aldeia e ao rio o nome cristão de "São Mateus", retirando o nome pagão "Cricaré", como era o costume da época.
Numa narrativa de sua viagem pela costa brasileira no ano de 1583, o jesuíta Fernão Cardim cita "aldêa de S. Mateus" [sic], exatamente no dia em que nela chegou para participar da festa do padroeiro. (CARDIN, Fernão. Tratado da Terra e Gente do Brasil. 2ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939, p. 263, grifo nosso).
Nisso baseiamos nossa convicção de que o Padre Anchieta foi responsável pela mudança do nome, e que o ano seja o de 1566 e não 1596, como defende alguns historiadores (NARDOTO, Eliezer Ortolani e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. São Mateus:Edal,  1999, p.406).

04. A criação da Vila de São Mateus - Século XVIII

Há poucos registros sobre a povoação de São Mateus após os relatos de Mém de Sá narrando a morte do seu fiho. Dos séculos XVI e XVII, portanto, pouco se sabe sobre a povoação.
A partir de 1716, Domingos Antunes recebeu a patente de “Capitão dos Moradores”, trazendo famílias para a povoação que inicia, então, um período de crescimento, principalmente com a perspectiva de se encontrar ouro nas nascentes do rio São Mateus.
O governo português, percebendo o perigo de perder o controle sobre as minas de ouro de Minas Gerais, resolveu tomar providências enérgicas para se evitar a subida de colonos para o sertão.
Em 1764, Thomé Couceiro de Abreu, Ouvidor Geral da Capitania de Porto Seguro, seguindo orientação da Coroa Portuguesa, ultrapassou os limites territoriais de sua capitania e tomou as medidas necessárias para a elevação da povoação à categoria de "Villa Nova do Rio de Sam Matheus", anexando-a ao domínio da Bahia.
Dentre as providências tomadas no ato de fundação da vila, citamos a medição das ruas e do largo da praça próxima à Igreja Matriz de São Mateus, o início da construção da Casa de Câmara e Cadeia (foto abaixo), a implantação do Pelourinho para aplicação de castigos (açoite) aos considerados fora-da-lei e a eleição dos primeiros vereadores.
A ata de fundação da vila é datada de 27 de setembro de 1764.
A partir dessa época, os colonos receberam incentivo para se estabelecerem nas terras localizadas entre a vila e o mar e foi proibida a subida para Minas Gerais.
A vila de São Mateus passou a dar obediências ao governo da Bahia e, a partir desse momento, houve grande crescimento das atividades comerciais, pois muitas famílias importantes daquele estado passaram a se mudar para São Mateus.

05. A mandioca, o açúcar e o café - Século XIX

Após a elevação da aldeia à categoria de vila, São Mateus ganhou grande impulso com a vinda de muitas famílias da Bahia. A partir de então passou a receber também grande número de escravos para a implantação de fazendas de cana-de-açúcar e mandioca. O gado ainda era pouco.
Em 1827 já existiam 2361 escravos negros (1228 homens e 1133 mulheres). Os brancos eram 478 homens e 475 mulheres.
Na metade do século XIX, o fazendeiro Antônio Rodrigues da Cunha (dezembro de 1793 + 27 de janeiro de 1863) possuía grandes plantações de cana e de mandioca na região do córrego São Domingos, terrenos atualmente pertencentes ao município de Conceição da Barra. Esse fazendeiro foi quem implantou o primeiro engenho de cana na região, às margens do rio Santana, com um revolucionário sistema de moagem hidráulica. (CUNHA, Eduardo Durão Cunha. São Mateus e sua história. Revista São Mateus 450 anos. Edição Única: Edal Editora, 1994, p.4-36.)
Antônio Rodrigues da Cunha era Comendador da Ordem de Cristo e da Imperial Ordem da Rosa e Comandante Superior da Guarda Nacional da Região Norte da Província, com o posto de Coronel da Guarda Nacional. Era o pai do Major Antônio Rodrigues da Cunha, que recebeu o título de "Barão dos Aimorés"
Dona Rita Maria da Conceição Cunha, esposa do comendador,  foi a maior proprietária de terras da região do atual município de Conceição da Barra e tornou-se uma das mais importantes produtora e exportadora de farinha da costa brasileira. Outros fazendeiros portugueses e brasileiros já possuíam fazendas implantadas próximas às margens do rio São Mateus como Antonio Gomes, Manoel Barbosa, Gotardo José Esteves e outros. Isso pode ser visto no mapa abaixo, de 1878.

06. O Barão de Timboy

Olindo Gomes dos Santos Paiva era grande proprietário de terras na região de Itaúnas, no município de Conceição da Barra. Esse fazendeiro doou todos os postes para a implantação da rede de telégrafo ligando Vitória a São Mateus. Essa doação lhe rendeu o título nobre de “Barão de Timboy”.
O barão de Timboy era mestiço. Não se casou, mas teve filhos com diversas mulheres.

07. O Barão dos Aimorés

Antônio Rodrigues da Cunha, filho do Comendador Antonio Rodrigues da Cunha e Dª Rita Maria da Conceição Cunha, nasceu em 1834, em Barra do São Mateus, atual município de Conceição da Barra.
Quando seu pai faleceu (1863) ele já estava em sua própria fazenda na Cachoeira do Cravo, com sua esposa Thomázia, filha do Barão de Itapemirim. Essa fazenda, implantada às margens do braço sul do rio São Mateus, terra dos índios botocudos (aimorés), era modelo de propriedade.
Foi o Barão quem primeiro represou o rio São Mateus para instalar engenhos importados da Europa, para fabricação de açúcar.
Fazendeiros portugueses e brasileiros já possuíam fazendas implantadas próximas ao rio São Mateus, como Antônio Gomes, Manoel Barbosa, Gotardo José Esteves e outros.
Antônio Rodrigues da Cunha, Major da Guarda Nacional recebeu, em março de 1889, o título de “Barão de Aimorés", que lhe foi outorgado pelo Imperador D. Pedro II.
Faleceu em São Mateus em 31 de julho de 1893.
Nas fotos abaixo vemos a casa de máquinas e de comércio construída pelo barão na beira do rio, a casa de residência construída pelo seu filho, o Coronel Cunha Júnior, também conhecido como Antunico Barão e uma reprodução de um quadro do barão.

08. A criação do município de São Mateus

A vila de São Mateus passou a ser município por Ato Provincial de 3 de abril de 1848.
No entanto não existe nenhuma comemoração nessa data, pois a celebração mais importante do município é a festa do padroeiro que acontece no dia 21 de setembro, quando se festeja também o início da colonização européia iniciada em 1544.

09. Negros de São Mateus

As terras compreendidas desde o rio Barra Seca até o rio Mucuri, divisa original do Espírito Santo com a Bahia, pertenciam ao município de São Mateus. E vimos que esse território foi anexado à Bahia, na época da fundação da Vila de São Mateus.
Essa situação continuou até 1823, quando a administração desse território foi devolvida ao Espírito Santo.
Como nesse período muitos fazendeiros vieram da Bahia para São Mateus, a maior parte dos escravos também vinha com eles ou através dos mercadores baianos de escravos.
Vieram negros de Angola e Guiné, das nações Bantu, Benguela, Cabidela. Foram trazidos para o trabalho nas lavouras, principalmente para produzir farinha de mandioca, alimento indígena que os portugueses e africanos incorporaram aos seus hábitos alimentares.
Contando com centenas de casas de farinha denominadas “kitungo ou quitungo”, a região de São Mateus se transformou numa das maiores produtoras e exportadoras de farinha de mandioca da costa brasileira.
O maior contingente de negros veio no início do século XIX, sendo que o último carregamento clandestino apreendido na costa brasileira aconteceu em 1856, quando foi aprisionada uma escuna norte-americana na barra do São Mateus, com 350 africanos. (NARDOTO, Eliezer Ortolani e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. São Mateus:Edal, 1999, p.66)
O movimento abolicionista em São Mateus era forte no final daquele século e os negros lutavam no sertão e na cidade contra a escravidão, organizando grupos que enfrentavam os temíveis capitães-do-mato.

10. A vinda dos italianos para São Mateus

No final do século XIX, a 13 de maio de 1888 acabou a escravidão no Brasil. Nesse mesmo ano, no dia 1º de outubro, chegou ao Porto de São Mateus o primeiro grupo de imigrantes italianos, formado por aproximadamente cinqüenta famílias. Elas foram encaminhadas para os lotes demarcados no vale do córrego Bamburral, para a formação do núcleo de Santa Leocádia, a cerca de 20 km da sede do município.
Essa região estava infestada de mosquitos que transmitiam a Febre Palustre (Malária). Isso provocou a morte da metade dos primeiros colonos italianos. No primeiro mês não fizeram outra coisa a não ser enterrar os mortos. (NARDOTO, Eliezer Ortolani e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. São Mateus: Edal,1999, p.92)
O Major Antônio Cunha conseguiu levar muitas famílias de imigrantes para trabalhar em suas terras como também o fizeram Constante Sodré e outros fazendeiros que se instalaram nas regiões mais altas (atual município de Nova Venécia), em terras mais apropriadas para a implantação da cultura do café.
Utilizando a mão-de-obra italiana, Antônio Cunha pode então completar o sonho de formar sua grande fazenda na serra dos Aimorés.
No entorno do “Barracão” utilizado como entreposto por Antônio Cunha, localizado a aproximadamente 30 km acima de sua fazenda na Cachoeira do Cravo, formou-se um núcleo urbano.
Os italianos o denominaram “Nova Venécia”, para lembrar a cidade de Veneza, capital da região do Veneto, na Itália, de onde veio a maioria dos imigrantes. Nas fotos abaixo vemos as ruínas do Casarão do Barão dos Aimorés; a primeira ponte e as primeiras construções em Nova Venécia;  o núcleo colonial de Santa Leocádia e a Fazenda Gruta. As duas últimas fotos (autor: Eutychio d'Oliver)  mostram a cidade de São Mateus em 1908, com as suas ruas principais: a penúltima, a Rua de Baixo (atual rua Dr. Moscoso) e a última, a Rua da Direita (atual rua Barão dos Aimorés).

11. A conquista das terras no norte do Espírito Santo no início do século XX

A primeira metade do século XX é marcada pelo avanço das iniciativas pela posse das terras do norte do Espírito Santo, quer seja pelos fazendeiros de gado, quer seja pelos negros e imigrantes e seus descendentes. Os fazendeiros descendentes de portugueses que ocupavam as terras beirando o rio São Mateus, foram ampliando seus domínios sobre as terras no lado norte deste rio, retirando as madeiras para serrarias, contando com a mão-de-obra dos negros. Estes se apropriavam de pequenas posses e os fazendeiros de grandes porções de terra. Porém, esse desbravamento ainda era pequeno e muito restrito às áreas próximas às margens dos grandes rios. Só mais tarde, com a extração da madeira, é que se consolidou a ocupação das terras do norte. Egler assim descreve: 

...A mata a princípio chegava até o fundo dos quintais, mas pouco a pouco, foi sendo  derrubada e em torno da Cidade instalaram-se diversas fazendas. Estas, em virtude da baixa  fertilidade do solo dos tabuleiros, dedicavam-se quase que exclusivamente à culturada da  mandioca. A farinha produzida era exportada em canoas, contribuindo inclusive para o  abastecimento de Vitória. ...

... Atualmente pouca lavoura se observa nas imediações da cidade [de São Mateus] e no trajeto de São Mateus a Conceição da Barra aparecem verdadeiros campos formados exclusivamente de sapé. Essa gramínea está invadindo as antigas terras de cultura tornado-as inúteis mesmo para a cultura da mandioca. (EGLER, Walter Alberto. A Zona Pioneira ao Norte do Rio Doce - A região de São Mateus. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE. Edição de Abril-Junho de 1951. p. 250-253)

Toda a região no lado norte do rio São Mateus, na medida em que ia perdendo a cobertura de florestas naturais, seja pela ação dos madeireiros, seja pela ação de pequenos posseiros que plantavam mandioca, foi tomada pelo sapê, uma gramínea que tem a caracterísitca de inibir o surgimento de outras espécies em sua volta (NARDOTO, Eliezer Ortolani. Paisagens de São Mateus. São Mateus: Jornal de São Mateus Ltda-ME, 2004. p.48). O sapê tornou-se uma praga dominando essa região que ficou conhecida pelo nome de "Sapê do Norte".
Os negros do Sapê do Norte, descendentes de escravos, viviam isolados, sem nenhum tipo de apoio oficial. Quase todos analfabetos, sem estradas, sem voz, sem vez, abandonados à própria sorte, viviam da fabricação de farinha, do plantio de pequenos roçados, da caça e da pesca.
Os imigrantes e seus descendentes, pouco a pouco foram ocupando algumas terras, comprando outras, no lado sul do rio São Mateus, entre São Mateus e Nova Venécia e avançando para o oeste. A mão-de-obra imigrante era utilizada na derrubada da mata para extração da madeira e implantação das lavouras de café. Também eram contratados para os serviços de construção civil, pois muitos eram pedreiros e carpinteiros. Favorecidos pela cultura européia, os imigrantes e seus descendentes mantinham uma vida mais regrada e com mais envolvimento religioso. Por terem mais conhecimentos, podiam produzir quase tudo de que necessitavam. Assim os italianos compravam apenas o querosene para iluminação, o sal, os tecidos e algum remédio, o que lhes garantia algum tipo de poupança, enquanto os negros precisavam comprar quase tudo, pois lhes faltava o conhecimento para produzir.
Na terceira década do século XX foi concluída a construção da estrada de ferro ligando São Mateus a Nova Venécia, facilitando o escoamento de madeira e café.
O trem de ferro fazia as paradas em pequenas estações construídas em vários pontos que recebiam o nome dos respectivos quilômetros. Com a desativação da estrada de ferro em 1945 e a implantação da rodovia obedecendo ao mesmo trajeto da ferrovia, as localidades que se desenvolveram ao longo da rodovia ficaram conhecidas pelo nome da quilometragem correspondente às paradas do trem de ferro. Por isso, até os dias atuais, denominamos tais localidades de "Km 41", "Km 35", "Km 28", "Km 13" e outras. Também ocorreu uma transferência das moradias e sedes de propriedades das margens do córrego Bamburral para as margens da nova rodovia.
O trem transportava cargas e passageiros entre São Mateus e Nova Venécia. Vemos nas fotos abaixo alguns aspectos do trem de ferro em pontos diversos da ferrovia.

12. O Porto de São Mateus

Até o final da década de 1930, os meios de transporte de passageiros ou de mercadorias para toda região norte do Espírito Santo eram os animais (cavalos e tropas de muares), os pequenos navios que aportavam em São Mateus e o trem de ferro.
O movimento no porto de São Mateus era intenso, com os trapiches cheios de mercadorias para exportação. Os armazéns vendiam mercadorias aos moradores locais e aos das vilas do interior como Barra de São Francisco, Nova Venécia, Boa Esperança, Jaguaré e outras, todas ainda pertencentes ao território de São Mateus.
A maior parte das mercadorias produzidas nas fazendas era transportada em canoas e vogas para o porto de São Mateus, onde eram vendidas para consumo local ou exportadas para outras cidades.
Na época da Segunda Guerra Mundial, o coronel Eleosippo Cunha tinha uma grande serraria no KM 47 da ferrovia e um grande estaleiro no Porto, onde construiu os navios "Aymorés" e  "Timbiras", além de pequenos barcos. O trem de ferro chegava ao Porto lotado de madeira e de produtos agrícolas trazidos de Nova Venécia e de outras regiões próximas.
Por causa da pouca profundidade e largura do rio em alguns trechos, os navios só podiam entrar ou sair de 15 em 15 dias, nas luas cheias e novas, quando as marés são mais altas.
Uma balsa era utilizada para a travessia de caminhões e automóveis no rio São Mateus.
Com a inauguração da ponte sobre esse rio, em 1954, o porto de São Mateus entrou em decadência, pois o sistema de transporte nacional passou a ser rodoviário.

13. As estradas de rodagem e a decadência do Porto de São Mateus

Com a abertura das estradas de rodagem, a partir de 1938, ano em que se inaugurou a estrada ligando São Mateus a Linhares, foi implantado o transporte de passageiros com ônibus. Depois da Segunda Guerra Mundial houve um aumento na oferta de transportes com caminhões e a ferrovia foi desativada e transformada em rodovia.
O transporte por navio entrou em decadência e o velho Porto foi perdendo as grandes casas comerciais que se mudaram para a Cidade Alta.

14. Economia em Decadência

Já nas primeiras décadas do século XX, algumas das famílias mais importantes de São Mateus mudaram-se para a capital ou para outras cidades brasileiras, principalmente Vitória e Rio de Janeiro.
O término das madeiras das matas nativas levou as indústrias de madeira (serrarias) a encerrarem suas atividades no município, na segunda metade desse século.
A produção agrícola do município, sem mecanização alguma, era muito pequena e sofria muito no período das estiagens.
Muitos comerciantes foram desistindo de suas atividades ou mudaram-se para outras cidades mais prósperas.
Distante da capital do Estado, com estrada ruim, carente de energia elétrica que era fornecida apenas no horário noturno, sem políticas públicas que pudessem incrementar algum desenvolvimento para a região, a cidade de São Mateus entrou em uma grande crise nas décadas de 50 e 60 do século XX.

15. O eucalipto e o petróleo: a redenção do norte

O dia 15 de agosto de 1967 nunca será esquecido em São Mateus. Nesse dia, às 19:55 horas jorrou petróleo na Fazenda Ponta, no poço 1-SM-01-ES, na localidade de Nativo.
A euforia do povo foi tamanha que muitos tomaram banho de petróleo, no Nativo.
Na década de 1970 foram descobertos vários campos de petróleo em São Mateus e Linhares e, na década de 1980, essas descobertas foram ampliadas.
Com o preço do Petróleo em alta no mercado internacional, a Petrobrás decidiu criar o Distrito de Exploração do Espírito Santo, na cidade de São Mateus.
A partir daí a economia da cidade se transformou completamente.
Concomitantemente, acontecia uma revolução no uso das terras em São Mateus e Conceição da Barra, com a implantação das florestas de eucalipto, a partir de 1969, graças ao pioneirismo do empresário Salvador Dutra que iniciou um plantio de 500 hectares, nesse mesmo ano.
Também nesse ano, a Companhia Vale do Rio Doce e a Aracruz Celulose S/A iniciaram seus grandes projetos de plantação de eucalipto. A primeira com fins energéticos e a segunda para produzir celulose.
Nessa época, a falta de política agrícola de apoio à pequena propriedade enfraquecia os agricultores. Acrescente-se a isso a propaganda oficial da Caderneta de Poupança, em tempo de inflação alta, levando os menos avisados a pensarem que ganhavam muito aplicando dinheiro na poupança.
Esses fatores somados a onda de urbanização que se iniciava naquela época, facilitava o convencimento dos pequenos agricultores em todo o Brasil, de que era melhor vender a terra e ir para a cidade.
As terras do norte capixaba, consideradas de pouca fertilidade, passaram a receber as devidas correções. O relevo plano, no entanto, favorecia a implantação da mecanização agrícola, o que facilitava o trabalho de plantio e de corte do eucalipto.
A população de São Mateus viu a cidade crescer demasiadamente com a vinda de pessoas dos mais diferentes municípios brasileiros, em busca de trabalho nas plantações de eucalipto ou na indústria de exploração de petróleo.
A população urbana cresceu mais de 600%, de 1980 a 2004.
O setor imobiliário obteve muitos lucros; o comércio foi o que alcançou o maior crescimento e os serviços passaram a ter grande representação na economia do município.

16. O Petróleo impulsiona a Economia

A partir da década de 1970, foram implantados pela Petrobras nas paisagens do litoral norte do Espírito Santo os campos e estações coletoras de petróleo e gás.
Novas estradas foram abertas para a exploração do petróleo, facilitando o acesso as regiões pouco assistidas até então.
Nos últimos anos, um mundo de oportunidades vem sendo plantado em todo o estado do Espírito Santo em função das descobertas de grandes campos de petróleo.
No norte, novas descobertas de óleo pesado em São Mateus, semelhante ao campo de Fazenda Alegre, no município de Jaguaré, mostra que a Petrobras está acertando em investir nas bacias terrestres e no desenvolvimento e aplicação de tecnologias para a produção de óleos com maior densidade.
A Estação de Fazenda Alegre, em Jaguaré, e o Terminal Norte Capixaba, em São Mateus, são dois investimentos que estão modificando a paisagem e a economia do norte capixaba.
Além disso, os municípios também vêm recebendo vultosas indenizações (royalties) pela exploração da riqueza do subsolo.
Toda essa movimentação contribui para o crescimento da economia da região nos seus diversos setores, principalmente o comércio e serviços. Nas fotos abaixo mostramos diversas instalações da Petrobras no município de São Mateus.

17. O Agro negócio

A vinda dos grandes projetos florestais para o norte do Espírito Santo estimulou muitos proprietários a se utilizarem da mecanização e das novas tecnologias que chegavam para o campo.
A família Martin, de São Mateus, iniciou o cultivo do mamão, levando o município a ser o maior produtor do Brasil, na décadas de 1980 e o pioneiro na exportação desse produto para o exterior. Depois, a mesma família iniciou o cultivo da macadâmia e culturas condimentares (urucum, aroeira e outras pimentas).
A fruticultura, os novos plantios com mudas clonais de café, de seringueira, de coco anão e tantas outras culturas agrícolas tornaram a agricultura do município uma das mais diversificadas do mundo.
Com sua área de 256.919,3 hectares ocupada principalmente por atividades agro-pecuárias, o agro-negócio mateense passou a ser responsável pela geração da maior parte do emprego e da renda no município.

18. A História da Ilha de Guriri

Os primeiros banhistas passaram a frequentar a praia de Guriri na década de 1950. Não havia estrada e a viagem era feita em canoas, pelo rio São Mateus e rio Mariricu, ou por um caminho muito difícil entre a s localidades de Pedra D' Água e Mariricu.
O prefeito Othovarino Duarte Santos iniciou a construção da estrada no final do seu primeiro mandato, em 1951, carregando barro dos barrancos da Pedra D' Água,
em carroças e sobre couro de boi, pois não existiam caminhões nem máquinas para executarem os serviços. A construção da estrada e da primeira ponte sobre o rio Mariricu foi concluída em 1962, no seu segundo mandato (1959/1963).
Os moradores de São Mateus frequentavam, até então, a praia de Conceição da Barra.
A primeira ponte, construída por Othovarino, era toda de madeira. Foi derrubada numa grande enchente, pois o buzano (espécie de lesma que rói a madeira e nela se infiltra, muito comum nos rios de águas salobras) cortou os pilares que, enfraquecidos, foram derrubados pelo balsedos (nome que os mateenses denominavam o aguapé).
A segunda ponte foi construída, em 1966, pelo Prefeito Otívio de Almeida Cunha (08/03/1965 a 31/01/1967). Essa ponte tinha os pilares de concreto armado, fixados em estacas de trilhos de ferro, cuja estrutura ainda existe no local.
A estrada para Guriri foi asfaltada pelo Governo Estadual, na década de 1980. No início da década de 70, na administração do prefeito Amocim Leite, a prefeitura doou muitos lotes para a construção de casas e o balneário alcançou grande crescimento. No final da década de 70, na administração do prefeito Gualter Nunes Loureiro, o balneário recebeu o serviço de água e energia elétrica e a prefeitura definiu sua urbanização com um grande loteamento.
No início da década de 90, na administração do prefeito Pedro dos Santos Alves, o sistema de água teve sua capacidade triplicada. Foram realizadas as obras de calçamento da Av. Oceano Atlântico, do calçadão, da iluminação da avenida e a implantação do serviço de telefonia.
A terceira ponte foi construída pelo Governo Estadual e inaugurada no dia 16/01/1998.
Nesse mesmo ano, na administração do prefeito Rui Baromeu, foram contruídos o Portal de Guriri, o acostamento da rodovia, no trecho entre a ponte e o balneário, com ciclovia e moderna iluminação, e uma cascata na entrada do balneário. A prefeitura ampliou a capacidade de abastecimento de água do balneário e viabilizou os recursos para o início da construção do sistema de esgoto sanitário do balneário, obra iniciada no primeiro ano (2001) do primeiro mandato do Prefeito Lauriano Marco Zancanela.
Em seus dois mandatos consecutivos realizou obras de melhorias na iluminação pública,  iniciou a obra de urbanização da orla com a construção do calçadão e calçamento de  ruas e avenidas.
Atualmente Guriri faz parte da zona urbana do município e pertence ao distrito da sede.

19. A Igreja de São Daniel Comboni em Guriri

Dom Daniel Comboni, um bispo italiano que dedicou sua vida à salvação da África, viveu no século XIX e lutou muito contra a escravidão e a pobreza em que viviam os africanos.
Morreu em 10 de outubro de 1881, com pouco mais de 50 anos. Foi Beatificado em 17 de março de 1996 e canonizado em 5 de outubro de 2003.
A Igreja Católica edificou a Igreja de São Daniel Comboni, a primeira do mundo a ele dedicada, na praia de Guriri, município de São Mateus,  com a forma arquitetônica de uma grande barca, lembrando as várias viagens de Comboni para a África para defender os negros da escravidão.
A beleza dessa igreja está em seu interior, com um grande vão livre, cujo telhado se apóia num intrigante projeto de tesouras de madeira.

20. O Milagre de Daniel Comboni em São Mateus

No dia 5 de outubro de 2003, Daniel Comboni foi canonizado em cerimônia realizada pelo papa João Paulo II, em Roma, por causa de uma cura milagrosa que aconteceu no Hospital Maternidade de São Mateus com a menina Maria José Paixão Oliveira, no início da década de 1970.
Essa menina estava internada e o médico fez uma cirurgia em seu estômago constatando, de imediato, uma infecção generalizada. Ele fechou o abdome da menina e disse para a irmã comboniana Luigia Polli que não havia mais nada a fazer. Naquele momento de tristeza a irmã Luigia pediu, em oração, que Comboni fizesse alguma coisa.
"O santinho de Daniel Comboni passou das mãos da irmã Luigia para as gélidas mãos de Maria José com esta estranha e pedagógica sugestão: - Esse homem barbudo pode lhe ajudar. Reze para ele". (SANTÂNGELO, Enzo. Daniel Comboni Missionário e Libertador. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 80).
A menina apertou o retratinho em suas mãos e colocou sob o travesseiro. As Irmãs fizeram uma corrente de orações para ela durante toda a noite. No dia seguinte a menina acordou e pediu comida.
O Dr. Carlos Cassiano, médico que a atendeu, ficou sem entender o que ocorrera no hospital.
Anos mais tarde, o médico foi ao Vaticano dar o seu testemunho científico da cura extraordinária que levou a igreja a colocar Daniel Comboni como santo.

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